
Na última segunda-feira (28), cerca de 100 pessoas se reuniram virtualmente na Conferência Livre da Capoeira, evento que integrou a programação preparatória para a IV Conferência Estadual de Promoção da Igualdade Racial (CONEPIR). Realizado no formato online, o encontro teve como objetivo colocar a Capoeira no centro do debate sobre políticas públicas no Estado da Bahia.
A conferência foi organizada pelo Coletivo Capoeira em Movimento Bahia, seguindo o regimento da Conferência Estadual, com ampla participação de mestres, mestras, contramestres, praticantes e ativistas da Capoeira. A abertura do encontro foi feita pelo coordenador geral do coletivo, Jacaré DiAlabama, que destacou:
“Capoeira é a principal ou é a primeira expressão de luta concreta de um povo escravizado que usou do seu corpo como instrumento de luta pela liberdade. Foi essa construção que marcou a Capoeira como resistência antirracista, por reparação e pela contribuição decisiva no desenvolvimento nacional. Essa importância precisa ser absorvida pelo poder público. Por isso, lutamos pelo direito e a dignidade de podermos viver da nossa arte e da nossa cultura dignamente.”
O evento contou com a presença da secretária da Sepromi, Ângela Guimarães, e da chefe de gabinete da pasta, Daniele Costa, que explicaram o funcionamento e a importância das conferências livres no processo de construção de políticas afirmativas.
A palestra principal foi conduzida pelo Mestre Bel, que provocou reflexões profundas sobre os eixos centrais do debate: Igualdade, Democracia, Reparação, Justiça Racial e a necessidade urgente de se construir políticas públicas para a Capoeira. Em seguida, a Mestra Princesa destacou a importância da existência do plano de salvaguarda da Capoeira, enfatizando que a valorização da cultura exige ações concretas e estruturadas por parte do Estado.
Entre as propostas debatidas para levar à IV CONEPIR, destacam-se:
- Inclusão da Capoeira na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), com foco na Educação Infantil e nos fundamentos da Lei 10.639/2003 e do Estatuto da Igualdade Racial (Lei 12.288/2010);
- Definição de critérios de contratação de capoeiristas nas escolas, respeitando os saberes tradicionais e evitando a exclusão de mestres por não possuírem formação acadêmica convencional;
- Garantia de espaços públicos estruturados, como praças, para a prática regular da Capoeira;
- Reconhecimento da cadeia produtiva da Capoeira, que movimenta economia por meio da atuação multifacetada de seus praticantes como educadores, músicos, artesãos, produtores e exportadores de cultura;
- Reformulação dos editais de premiação e fomento, garantindo acessibilidade para mestres e mestras mais velhos/as, com mecanismos como a inscrição por oitiva;
- Fortalecimento de ações nos municípios do interior e criação de Casas da Capoeira como espaços permanentes de cultura, formação e resistência.
Demais participantes também destacaram a Capoeira como ferramenta pedagógica, ao defenderem sua presença na Educação Infantil fundamentada nos valores civilizatórios afro-brasileiros, promovendo identidade, ancestralidade, pertencimento e consciência social desde os primeiros anos escolares.
A Conferência Livre da Capoeira foi um momento potente de celebração da cultura, troca de saberes e articulação política. Fortalece a participação do segmento na construção coletiva de políticas públicas e reafirma o papel da Capoeira como patrimônio vivo e instrumento de transformação social.